Corrida A grande muralha-China
China 2024 — A chegada a Pequim
Em maio de 2024, embarquei para a China com um grande objetivo: participar da The Great Wall Marathon, uma das corridas mais desafiadoras e diferentes do mundo. Depois de quase 48 horas de viagem, finalmente cheguei a Pequim. O cansaço era enorme, o fuso horário confundia completamente o corpo, mas a alegria de estar ali falava mais alto.
Logo no início, fomos apresentados aos guias que nos acompanhariam durante a programação. Todas as manhãs eles explicavam o itinerário do dia e nos orientavam sobre os passeios. Havia também guias que falavam mandarim, inglês e português, algo essencial em um país onde até as tarefas mais simples podiam se transformar em um desafio.
Nosso primeiro passeio foi ao Templo do Céu, um dos lugares mais conhecidos de Pequim. O dia estava lindo, com o céu completamente azul, deixando ainda mais vivas as cores da arquitetura chinesa. Os telhados, as colunas vermelhas e os detalhes cuidadosamente desenhados pareciam contar séculos de história.
O Templo do Céu é imponente, mas, ao mesmo tempo, transmite uma sensação de harmonia e tranquilidade. Caminhamos pelos longos corredores coloridos, observamos os detalhes das construções e conhecemos espaços como o Muro do Eco e o Altar Circular. Em cada canto havia algo diferente para fotografar.
Também tivemos nosso primeiro contato com o metrô de Pequim. Fiquei impressionada com a organização e a segurança: antes de entrar, todos os passageiros passavam por uma revista. Apesar das placas com caracteres chineses parecerem indecifráveis no início, o sistema era moderno e muito bem sinalizado.
Entre o cansaço da viagem, as poucas horas de sono e a adaptação ao fuso horário, comecei a descobrir uma China grandiosa, organizada e cheia de contrastes. A corrida ainda estava por vir, mas aquela primeira visita já mostrava que a viagem seria muito maior do que apenas enfrentar os degraus da Grande Muralha. Seria também um encontro com uma cultura completamente diferente de tudo o que eu conhecia.
Praça Tiananmen e Cidade Proibida
Depois de conhecermos o Templo do Céu, seguimos explorando Pequim. Durante o passeio, também experimentamos alguns pratos típicos da culinária chinesa — mais uma descoberta em meio a sabores, costumes e apresentações bem diferentes daqueles a que estamos acostumados.
Visitamos a imensa Praça Tiananmen, um dos lugares mais conhecidos e simbólicos da China. A praça impressionava pelo tamanho, pela grandiosidade dos edifícios e pelo enorme retrato de Mao Tsé-Tung diante da entrada da Cidade Proibida. Estar ali, em um local que tantas vezes eu havia visto apenas em fotografias e reportagens, foi uma experiência marcante.
Em seguida, entramos na Cidade Proibida. Durante séculos, aquele enorme complexo de palácios foi reservado aos imperadores chineses, suas famílias e seus servidores. Caminhar por seus pátios era como fazer uma viagem no tempo. Os telhados alaranjados, as paredes vermelhas, os portões monumentais e os leões de bronze mostravam a riqueza de detalhes da antiga arquitetura imperial.
O lugar parecia não ter fim. A cada novo portão surgiam outros pátios, construções e jardins. Também chamavam a atenção as grandes formações de pedra, cuidadosamente trabalhadas, e o fosso que circunda o complexo, refletindo as muralhas e os antigos palácios.
Foi um passeio cansativo, com muita caminhada e bastante sol, mas inesquecível. A Cidade Proibida revelou uma parte grandiosa da história da China e me fez perceber, mais uma vez, o privilégio de estar tão longe de casa, conhecendo pessoalmente lugares que durante muito tempo pareceram pertencer apenas aos livros.
Os sabores de Pequim
Conhecer a China também significava experimentar novos sabores. Durante os passeios, provamos pratos típicos da culinária chinesa, muitos deles bem diferentes do que encontramos nos restaurantes chineses do Brasil. Entre as experiências estavam camarões servidos inteiros, bastante temperados e com uma apresentação muito característica.
Também visitamos uma tradicional casa de chá, onde aprendemos um pouco sobre os diferentes tipos de chá, seus aromas e a forma correta de prepará-los. Participamos de uma degustação, com pequenas xícaras de porcelana e todo um ritual ao redor da bebida. Gostei tanto da experiência que acabei comprando vários chás para levar para casa.
Até as bebidas mais comuns viravam novidade. A Coca-Cola tinha o rótulo completamente escrito em chinês, e experimentei também um café gelado comprado no aeroporto.
Era curioso observar como produtos conhecidos apareciam com outra identidade do outro lado do mundo.
Apesar de toda a diferença cultural, também encontramos Starbucks e McDonald’s em Pequim. Aos poucos, entre sabores desconhecidos e marcas familiares, fui conhecendo um pouco mais do cotidiano chinês. A comida, o chá e até as embalagens acabaram se tornando parte das lembranças daquela viagem tão especial.
O primeiro encontro com a Grande Muralha
Antes da corrida, fomos até a região da Grande Muralha para fazer um treino de reconhecimento. Saímos muito cedo de Pequim e enfrentamos cerca de duas horas e meia de viagem. Durante o percurso, vimos o sol nascer pela janela do ônibus, enquanto a ansiedade aumentava a cada quilômetro.
Para chegar à cidade próxima à Muralha, passávamos por postos de controle administrados pelos chineses. Todo o acesso era organizado e fiscalizado, mostrando mais uma vez o controle rigoroso existente no país. Para nós, tudo era diferente e despertava muita curiosidade.
O treino serviu para conhecermos uma parte do percurso e termos uma ideia do que enfrentaríamos no dia da prova. Naquele momento, pude perceber que correr na Grande Muralha não seria uma corrida comum. Os degraus eram irregulares, alguns muito altos, outros estreitos, e as subidas exigiam bastante força e atenção.
Também vimos as placas que indicavam os diferentes percursos: 8, 21 e 42 quilômetros.
Cada distância seguia por uma direção, mas todas carregavam o mesmo desafio de correr em um dos lugares mais impressionantes do mundo.
Depois daquele reconhecimento, a expectativa ficou ainda maior. Eu sabia que a prova seria difícil, ainda mais com o cansaço e o fuso horário de onze horas, mas também sentia que estava prestes a viver uma experiência única. A Grande Muralha já não era mais apenas uma imagem distante: estava diante de mim, esperando pelo grande dia.
A meia maratona na Grande Muralha
No dia 18 de maio de 2024, finalmente chegou o momento mais esperado da viagem: correr a meia maratona da Great Wall Marathon. Na noite anterior, deixei tudo preparado — a roupa preta com detalhes de borboletas, o tênis e o número 923. Aquele seria o meu “manto” para enfrentar um dos percursos mais desafiadores da minha vida.
Saímos ainda muito cedo de Pequim. Foram aproximadamente duas horas e meia de viagem até a região da prova, vendo o sol nascer pela janela do ônibus. O corpo ainda sofria com o fuso horário de onze horas, e eu não havia conseguido descansar como precisava, mas a emoção de correr na Grande Muralha era maior do que o cansaço.
Quando a prova começou, percebi rapidamente que aquele não seria um percurso comum. As subidas eram intensas e, ao chegarmos à Muralha, encontramos uma sequência interminável de degraus. Eles eram irregulares: alguns altos, outros estreitos, exigindo força nas pernas, equilíbrio e muita concentração.
Em vários momentos era impossível correr. O jeito era diminuir o ritmo, apoiar as mãos nas pernas e continuar subindo, um degrau de cada vez. O sol, o calor e o cansaço tornavam tudo ainda mais difícil. Ao olhar para trás, porém, a paisagem era impressionante: a Muralha serpenteava pelas montanhas verdes, parecendo não ter fim.
Correr naquele cenário histórico era algo difícil de explicar. Ao mesmo tempo que o corpo pedia descanso, a mente lembrava que eu estava vivendo uma oportunidade única. Cada torre alcançada e cada nova subida vencida renovavam minha vontade de continuar.
A prova foi dura, principalmente por causa dos degraus e do fuso horário, que ainda deixava meu corpo completamente desregulado. Mesmo assim, segui em frente até atravessar a linha de chegada dos 21 quilômetros.
Receber aquela medalha foi uma emoção enorme. Ela trazia o desenho da Grande Muralha e representava muito mais do que a conclusão de uma meia maratona. Representava todas as subidas, o cansaço, as noites mal dormidas e a determinação necessária para não desistir.
A Great Wall Marathon foi difícil, mas também foi uma das experiências mais marcantes da minha trajetória como corredora. Correr sobre a Grande Muralha da China parecia um sonho distante — e, naquele dia, transformei esse sonho em mais uma conquista para guardar para sempre no coração.
Caminhando sem rumo por Pequim
Depois da corrida, aproveitei um tempo livre para caminhar pelas proximidades do hotel. Saí sem um destino definido, apenas com vontade de observar a cidade com mais calma. Foi assim que descobri a Wangfujing Shopping Street, uma das ruas comerciais mais conhecidas de Pequim.
A avenida era ampla, movimentada e cercada por lojas, grandes edifícios, painéis coloridos e esculturas. Uma delas, em forma de dragão dourado entre espigas, chamava a atenção de todos que passavam. Havia também detalhes curiosos pelo caminho, como placas e inscrições chinesas gravadas no chão.
Enquanto caminhava, observava a organização do trânsito. Achei interessante ver que existiam sinais separados para os carros e para as bicicletas, que fazem parte do cotidiano da cidade. Até os ônibus, as estações de metrô e as placas se transformavam em descobertas para quem estava conhecendo Pequim pela primeira vez.
Vi vitrines modernas, painéis gigantes, construções que misturavam estilos e esculturas de touros pelas calçadas. Era uma Pequim diferente daquela dos templos e palácios: moderna, comercial e cheia de movimento.
Esse passeio sem rumo acabou se tornando uma das experiências mais gostosas da viagem. Sem horários, guias ou programação, pude simplesmente caminhar, observar as pessoas e descobrir aos poucos a vida cotidiana da cidade. Às vezes, são justamente esses momentos inesperados que nos deixam as lembranças mais verdadeiras de um lugar.

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