Deserto Sahara
Casablanca: o primeiro capítulo da nossa aventura no Saara
Em novembro de 2023, embarquei para o Marrocos para viver uma experiência muito especial: participar de uma corrida no deserto do Saara, organizada pela Mountain Do. Mas, antes de seguirmos para o grande desafio, tivemos a oportunidade de conhecer Casablanca.
Já na chegada ao Aeroporto Mohammed V, a alegria do grupo mostrava que aquela seria uma viagem inesquecível. Éramos pessoas reunidas pelo esporte e pelo desejo de conhecer lugares diferentes, prontas para compartilhar não apenas uma corrida, mas uma verdadeira aventura.
O hotel........................
Casablanca nos recebeu com sua mistura fascinante de tradição e modernidade.
Caminhamos pelas ruas, observamos as construções brancas, sentimos o movimento da cidade e encontramos personagens vestidos com trajes típicos marroquinos. Cada detalhe nos lembrava de que estávamos em um país com uma cultura rica, colorida e muito diferente da nossa.
Tomamos chá.
Aqui fomos ver dança do ventre.
Outro restaurante à beira mar..
A gastronomia também fez parte dessa descoberta. Entre almoços, jantares e muitos brindes, experimentamos novos sabores e aproveitamos para conhecer melhor os companheiros de viagem. Em um dos restaurantes, cercados por uma bela decoração marroquina, assistimos a apresentações de dança e tivemos uma noite animada e especial.
Também visitamos um local que recria a atmosfera do famoso filme Casablanca.
Embora o clássico tenha sido filmado em estúdios de Hollywood, estar ali despertou toda a magia e o romantismo associados à história. Foi impossível não lembrar da fama mundial da cidade e registrar aquele momento.
Casablanca ainda nos presenteou com uma bela vista do Oceano Atlântico.
À noite, observando o mar iluminado sob o céu escuro, vivi um daqueles instantes tranquilos que ficam guardados na memória. Era o contraste perfeito com tudo o que viria depois: o calor, a areia e a imensidão do Saara.
Foram dias de passeios, encontros, risadas, boa comida e muita expectativa. Aos poucos, deixávamos de ser apenas um grupo de viajantes e começávamos a nos tornar companheiros de uma grande jornada.
Quando chegou a hora de dizer “tchau, Casablanca”, levávamos conosco belas lembranças — mas a parte mais desafiadora da viagem ainda estava por começar. O deserto nos esperava.
E assim, depois desse primeiro contato encantador com o Marrocos, seguimos rumo ao Saara, onde eu viveria uma das experiências mais marcantes da minha história como corredora.
De Casablanca a Merzouga: finalmente, o encontro com o Saara
Depois dos dias agradáveis em Casablanca, chegou o momento de continuar nossa viagem rumo ao verdadeiro objetivo daquela aventura: o deserto do Saara. Na noite de 29 de novembro de 2023, embarcamos no Aeroporto Mohammed V com destino a Errachidia, uma das principais portas de entrada para o deserto marroquino.
O voo partiu perto da meia-noite. Ao chegarmos a Errachidia, já sentimos uma mudança completa de cenário e de temperatura. Fazia muito frio, bem diferente da imagem de calor intenso que normalmente associamos ao deserto. No aeroporto, as inscrições em árabe e na escrita tradicional berbere anunciavam que estávamos entrando em uma região com identidade e cultura próprias.
De Errachidia, seguimos por terra em direção a Merzouga. Aos poucos, as cidades foram ficando para trás e a paisagem começou a se transformar. As estradas atravessavam áreas cada vez mais áridas, cercadas por montanhas, pedras e extensões de terra quase sem vegetação. Era como se estivéssemos deixando o mundo conhecido e entrando, pouco a pouco, no silêncio do Saara.
Nossa hospedagem foi no Kasbah Tombouctou, um hotel construído no estilo das antigas fortalezas marroquinas. Sua entrada iluminada, as paredes em tons terrosos e os detalhes da arquitetura local pareciam nos transportar para outra época. O hotel combinava perfeitamente com a paisagem e se tornou nosso ponto de apoio para os passeios, a preparação para a corrida e o descanso depois de cada experiência.
As chaves dos aptos.pscina do hotel
Durante nossa permanência na região, conhecemos um pouco da vida dos nômades do chamado deserto negro. Tivemos contato com pessoas que vivem de forma muito simples, enfrentando as dificuldades de um ambiente seco e isolado. Fomos recebidos com hospitalidade, tomamos o tradicional chá marroquino e provamos um grande pão preparado de maneira artesanal, que brincando chamamos de “pizza raiz dos nômades”.
Foi um encontro que despertou muitos sentimentos. A vida naquela região pode parecer dura aos nossos olhos, mas é sustentada por tradições, escolhas e conhecimentos transmitidos por gerações. Mais do que observar, tivemos a oportunidade de escutar, conviver e compreender um pouco melhor uma realidade tão diferente da nossa.
Um dos momentos mais marcantes foi o passeio de dromedário pelas dunas de Merzouga. Com os lenços protegendo o rosto do vento e da areia, seguimos em fila pelo deserto. Subir no dromedário foi uma aventura à parte, mas logo o balanço do animal e a imensidão das dunas tomaram conta de tudo.
Enquanto avançávamos, o sol começava a descer e a areia mudava de cor a cada instante. Os tons dourados e alaranjados se espalhavam pelo horizonte, criando uma paisagem difícil de descrever. Quando os dromedários descansaram juntos sobre a areia, diante daquela imensidão silenciosa, tivemos a sensação de estar dentro de um sonho.
Aquele passeio ao pôr do sol foi muito mais do que uma atração turística. Foi o nosso verdadeiro encontro com o Saara: grandioso, sereno e inesquecível.
A cada dia, a expectativa aumentava. Em breve, aquelas mesmas paisagens deixariam de ser apenas o cenário dos nossos passeios e se transformariam no percurso da corrida. O grande desafio estava cada vez mais perto.
Correndo no Saara: 10 quilômetros que valeram por muitos mais
No dia 2 de dezembro de 2023, chegou o momento mais esperado da viagem: a corrida Mountain Do Deserto do Saara, em Merzouga, no Marrocos.
A largada aconteceu em meio a uma paisagem extraordinária. O sol iluminava as dunas, os corredores vestiam as cores da prova e, diante de nós, aparecia a imensidão do deserto. Era uma imagem linda, mas bastaram os primeiros quilômetros para eu entender que aquela corrida seria muito mais difícil do que parecia.
Inicialmente, eu estava inscrita para os 21 quilômetros. Porém, diante das condições do percurso, decidi mudar para a prova de 10 quilômetros. Foi uma decisão consciente e necessária. Correr na areia fofa é completamente diferente de c
or
rer no asfalto: os pés afundam, as pernas ficam pesadas e cada passada exige muito mais força.
Nas subidas das dunas, a dificuldade aumentava ainda mais. Muitas vezes foi necessário diminuir bastante o ritmo e caminhar. A areia parecia segurar meus pés, tornando cada metro uma conquista. O cenário era belíssimo, mas o esforço era enorme.
Foram 10,54 quilômetros concluídos em 1 hora e 47 minutos, com ritmo médio de 10min09s por quilômetro. Os números mostram a distância e o tempo, mas não conseguem traduzir completamente o desgaste físico, a persistência e a emoção vividos naquele percurso.
Custei a completar a prova. Houve momentos difíceis, em que precisei reunir forças e seguir passo a passo. Mas desistir não era uma opção. Eu queria atravessar aquelas dunas e chegar ao final, independentemente do tempo.
Mudar dos 21 para os 10 quilômetros não diminuiu minha conquista. Pelo contrário: significou respeitar meus limites e tomar a melhor decisão para conseguir viver aquela experiência com segurança. No deserto, aprendi que coragem também é saber adaptar os planos.
Quando terminei, senti um enorme alívio e muito orgulho. Receber o troféu de participação da Mountain Do foi a confirmação de que eu havia vencido um desafio completamente diferente de todos os outros. Não foi apenas uma corrida de 10 quilômetros. Foi uma prova de resistência, determinação e respeito pelo próprio corpo.
A areia pesou nos pés, o percurso exigiu muito e a chegada demorou a acontecer. Mas eu consegui.
E, no final, aqueles 10 quilômetros pelo Saara valeram por muitos mais.
Do deserto a Marrakech: uma viagem repleta de descobertas
Depois da emoção e do esforço da corrida, chegou o momento de deixar Merzouga e seguir para Marrakech. Fizemos o percurso de ônibus, em uma longa viagem que atravessou diferentes regiões do Marrocos. O caminho era extenso, mas estava longe de ser apenas um deslocamento: havia muito para conhecer durante o trajeto.
Antes de partirmos, o deserto ainda nos reservou uma surpresa. Pela manhã, o céu estava limpo e as dunas apareciam perfeitamente. Mais tarde, o mesmo lugar ficou praticamente encoberto por uma tempestade de areia. Parecia impossível que as duas imagens tivessem sido feitas no mesmo local e no mesmo dia. Conheci o Saara ensolarado, frio e até coberto pela areia levada pelo vento!
Ao longo da estrada, vimos nas montanhas uma enorme inscrição representando o lema do Marrocos: “Deus, Pátria e Rei”. A frase, visível a grande distância, mostrava a forte ligação do povo marroquino com sua fé, sua terra e sua monarquia.
Uma das primeiras paradas foi em Erfoud, no Museu Morabit de Mármores e Fósseis. Descobrimos que aquela região do atual deserto já esteve coberta pelo mar há milhões de anos. Vimos trilobitas, dentes, conchas e outros vestígios de animais marinhos preservados nas rochas. Era fascinante imaginar que, onde hoje existe tanta areia, um dia houve um imenso ambiente marinho.
Seguimos então por paisagens áridas, pequenos povoados e vales cercados por montanhas. No Vale do Dadès, observamos as construções em tons terrosos espalhadas pela região, perfeitamente integradas à paisagem.
Durante a viagem, ainda avistamos uma usina heliotérmica. A luz solar é refletida por inúmeros espelhos para gerar calor e produzir energia elétrica. No meio de uma região tão seca e ensolarada, foi interessante observar como a força do sol também é aproveitada como fonte de energia.
Outra parada especial foi Ouarzazate, conhecida por sua ligação com o cinema. Visitamos locais com cenários grandiosos, construídos em meio à paisagem desértica, onde foram produzidas cenas de filmes e séries famosos. Ambientes que lembravam antigas cidades e fortalezas nos transportaram para as histórias de produções como Gladiador, Game of Thrones, Missão: Impossível e Indiana Jones.
Antes de chegarmos a Marrakech, conhecemos também uma cooperativa feminina dedicada à produção do óleo de argan. Vimos de perto o trabalho artesanal das mulheres, desde o preparo das sementes até a formação da pasta utilizada na fabricação de alimentos e cosméticos. Além de preservar uma tradição marroquina, a cooperativa representa trabalho, independência e geração de renda para muitas mulheres.
A viagem de ônibus foi longa, mas cada parada revelava uma nova face do Marrocos. Em poucas horas, passamos pelas dunas do Saara, por montanhas, cânions, vales, povoados, fósseis milenares, cenários de cinema e tradições mantidas por gerações.
Quando finalmente nos aproximamos de Marrakech, já levávamos conosco muito mais do que as lembranças da corrida. O caminho havia se transformado em uma viagem dentro da própria viagem.
E agora uma nova cidade, cheia de cores, sons, aromas e movimento, estava pronta para nos receber.
Marrakech: cores, aromas e movimento na cidade antiga
Depois da longa viagem desde o deserto, finalmente chegamos a Marrakech. Se o Saara nos impressionou pelo silêncio e pela imensidão, Marrakech nos recebeu com movimento, sons, aromas e uma explosão de cores.
Um dos lugares mais marcantes foi a Medina, como é chamada a parte antiga da cidade. Entrar ali era como atravessar uma porta para outro mundo. Suas ruas estreitas formavam um verdadeiro labirinto, repleto de corredores comerciais conhecidos como souks.
A cada passo surgia uma nova descoberta: pequenas lojas, tecidos, bolsas, joias, tapetes, luminárias, ervas, doces e temperos coloridos. Os produtos eram expostos de maneira tão bonita que pareciam fazer parte da própria decoração das ruas. Os aromas das especiarias e da comida misturavam-se ao movimento das pessoas, das motocicletas e dos comerciantes anunciando suas mercadorias.
Também encontramos músicos tocando instrumentos tradicionais nas ruas. A música, as roupas típicas e o cenário em tons avermelhados ajudavam a criar aquela atmosfera tão característica do Marrocos.
Na grande praça da Medina, o movimento aumentava à medida que o dia terminava. As barracas começavam a acender suas luzes, os vendedores preparavam alimentos e os terraços dos cafés ficavam cheios de pessoas observando a cidade. Marrakech parecia se transformar diante dos nossos olhos.
Experimentamos e fotografamos os doces marroquinos, com diferentes formatos, cores e recheios. Vimos também enormes recipientes decorados, cheios de ervas e especiarias, alguns formando a estrela verde presente na bandeira do país. Tudo chamava a atenção e convidava a olhar mais de perto.
Uma das lembranças mais especiais foi ver meu nome escrito de três maneiras: em português, em árabe e na escrita berbere. Um pequeno quadro que reuniu diferentes culturas e transformou meu nome em uma recordação única daquela viagem.
Marrakech era intensa, cheia de estímulos e de vida. Em alguns momentos, era preciso prestar atenção para não se perder entre os corredores da Medina. Mas talvez se perder um pouco fizesse parte da experiência, porque sempre havia algo novo esperando na esquina seguinte.
Depois do silêncio das dunas, da dificuldade da corrida e das paisagens atravessadas durante a viagem, Marrakech encerrou essa etapa com energia e cor.
O Marrocos havia nos mostrado muitas de suas faces: a modernidade de Casablanca, a grandiosidade do Saara, a simplicidade da vida nômade, os vales e montanhas do interior e, finalmente, o encanto vibrante de Marrakech.
Uma viagem feita de desafios, descobertas e lembranças que permanecerão para sempre.




























































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